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A doutora precisa de uma consulta?!

Catarina (nome fictício) é uma médica psiquiatra com 38 anos. Sempre foi vista como uma profissional promissora. Antes disso era olhada como uma aluna promissora. Os pais diriam que era uma filha promissora. Mas Catarina não via ou sentia as coisas dessa forma. Para ela não estava a fazer mais do que era suposto. Sim, o seu nível de perfeccionismo sempre foi elevadíssimo. Algo que diziam ser característico de alguém tão promissor como a Catarina. Na adolescência passou por umas dificuldades com a alimentação. Chegaram a falar de uma Perturbação da Conduta Alimentar, mas não chegou a ser confirmado. Além disso a Catarina sempre foi esquisita com a comida desde criança. Tinham uma alimentação bastante selectiva. Algo que muitos diziam não ser um problema, até porque assim não teria os problemas de obesidade que havia na família, nomeadamente no seu irmão mais velho. Nunca perdeu tempo com as amizades. E a designação é mesmo essa - perder. Até porque Catarina tinha alguma facilidade em fazer amizades, isto quando era preciso, mas não as mantinha. E daí a questão de não perder tempo com as amizades. Era o que Catarina dizia. Algo que lhe granjeava elogios, até porque havia de manter os excelentes resultados escolares de alguém sempre tão promissor quanto ela. Aprendeu a ler sozinha, ainda que os seus pais só tenham percebido isso mais tarde. A Catarina não fazia questão de chamar a atenção sobre si ou sobre os seus feitos. Não achava isso adequado ou sequer justo. E a justiça era outra questão bastante pertinente para si. Algo nunca antes visto. O seu avó sonhava que Catarina fosse para juíza, mas o interesse da Catarina recaia sobre a compreensão do ser humano. Porque é que as pessoas faziam isto ou aquilo! Na verdade, algo que sempre a acompanhou, mesmo agora como médica psiquiatra. Porque é que as pessoas fazem, sentem ou dizem isto ou aquilo. E não tem a ver com uma compreensão cognitiva, intelectual, racional e até mesmo médica. Isso a Catarina faz como ninguém. Tem a ver com a compreensão do que é subjectivo e próprio das pessoas. E principalmente quando esse subjectivo se afasta da sua forma de pensar, sentir e fazer.


Vários de vocês poderão estar a pensar: a Catarina parece ser uma pessoa sobredotada ou alguém com uma Perturbação do Espectro do Autismo.


A questão aqui prende-se com a forma como vamos ajudar a Catarina neste seu momento de vida. Os sintomas de ansiedade e depressão têm estado a agravar. E o enquadramento numa situação de burnout não é suficiente para compreender o todo da pessoa da Catarina, para além dos sintomas e das características associadas. A Catarina começou por fazer uma prescrição a si mesma face aos sintomas apresentados, mas sentiu ao fim de algum tempo que necessitava de falar com um colega seu. Neste momento a medicação parece mais ajustada e a surtir o efeito terapêutico desejado, mas continua a não ser suficiente para ajudar a compreender as dificuldades da Catarina. E até mesmo a própria se pergunta do porquê das coisas estarem a ser difíceis neste momento e não ao longo da vida. Ainda que reconheça que desde sempre os acontecimentos na sua vida foram vividos no silêncio, no seu silêncio. Até porque nunca lhe fez sentido estar a partilhar estas e outras coisas com os outros. Pois as coisas são suas e não das outras pessoas, e como tal não lhe faz sentido estar a incomodar as outras pessoas. Até porque se as outras pessoas não lhe pediam para partilhar ainda menos sentido lhe fazia dizer o que quer que fosse. Além da Catarina não dar muito crédito à capacidade das outras pessoas resolveram as coisas. Se nem conseguiam resolver a sua vida, como haveriam de ajudar a resolver a sua. Além de que fazer as coisas como as outras pessoas dizem para fazer sempre foi uma dificuldade para a Catarina. Por exemplo, os trabalhos de grupo na escola sempre foi a Catarina a fazê-los. Os outros não diziam nada e ainda ficavam agradecidos com a nota final. Quando na faculdade de medicina alguns trabalhos tiveram de ser feitos em equipa começou a sentir maiores dificuldades em conseguir conjugar formas diferentes de fazer as mesmas coisas. E ainda mais tem sentido desde que começou a trabalhar. E antes de passar a trabalhar no hospital onde tem estado os últimos três anos, antes disso saltitou por várias clinicas, precisamente pela dificuldade em conseguir articular dessa forma com os colegas.


A Catarina acabou de saber há três semanas que estas e outras características suas estão enquadradas num diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Além dos sintomas habituais de ansiedade e depressão e que tem estado a receber ajuda médica. Mas a Catarina tem-se questionado sobre como é que vai fazer as coisas na sua vida pessoal e familiar, social, ainda que esta seja extremamente diminuta e circunscrita, mas também profissional. Este tem sido o foco de maior preocupação e gerador de ansiedade em si. Até porque percebe que isso vai implicar falar com as pessoas, seja na família, mas principalmente no trabalho. E a Catarina não sabe como o fazer! Não sabe como o fazer tendo em conta estes assuntos e não sabe como o fazer tendo em conta que não sabe o que esperar da reacção das outras pessoas. Ainda que em determinados contextos onde já trabalhou tenha usado o seu estatuto de médica para poder fazer valer a sua posição. Ainda que isso já lhe tenha valido várias opiniões negativas relativamente à avaliação que fazem da sua pessoa e personalidade.


Uma questão que sente ser bastante difícil é a interpretação dos comportamentos, principalmente os não verbais. Até porque trabalha com vários profissionais de saúde, mas também com os seus doentes e familiares. São muitas formas e que normalmente não são assim tão padronizadas e constantes e como tal sente que consegue fazer uma leitura profissional, mas que não chega para conseguir compreender a totalidade da mensagem. Ainda que a Catarina diga que se consegue relacionar melhor com os seus doentes do que com os seus colegas.


Um outros aspecto sempre difícil na vida são as mudanças e ainda mais aquelas que são inesperadas, algo que ocorre com grande frequência na área da saúde. Assim como os aspectos sensoriais, tão frequentemente presentes na vida das pessoas autistas. E que as instituições (i.e., centros de saúde, hospitais, clinicas), ainda se encontram pouco preparados e pensados para estas questões da comodidade sensorial. As situações que aqui foram referidas não se esgotam, e são similares às que são apontadas por outros profissionais que não de saúde. Contudo, continua a ser frequente pensar-se que as pessoas autistas se centram apenas num determino grupo de pessoas, normalmente associado a maiores dificuldades de aprendizagem e sociais. E ainda que venham a existir nos últimos anos séries televisivas sobre médicos com diagnóstico de perturbação do espectro do autismo. Ainda assim, é difícil considerar que um/a médico/a possa ter esta condição. O que leva também a que estes mesmos profissionais, mesmo que na área da psiquiatria, tal como a Catarina possam não equacionar tão imediatamente esta possibilidade. Até porque também os profissionais de saúde estão sujeitos a todo um conjunto de enviesamentos. Para além de terem passado todo um conjunto significativo de anos, em que não eram médicos, e estiveram sem compreensão do que é que se passava consigo na sua forma de pensar, sentir e agir.


O tema do espectro do autismo em profissionais de saúde não se esgota aqui e haveremos de voltar a ele. Contudo, é importante continuar a sensibilização de toda uma comunidade para estes grupos minoritários e que por isso ficam tão abandonados e fragilizados do ponto de vista da resposta às suas necessidades de saúde mental, mas também de projecto de vida pessoal e profissional.


 
 
 

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